11.Set.2011 12:17
VooDoo
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Back2Black Festival: altos e baixos, mas um saldo positivo

- Grandes patrocinadores, investimento pesado; saldo positivo, mas a sensação de que dá pra ser melhor -
por J. Oster


Palco montado, tudo lindo. Iluminação inspiradora a valorizar aquele local distinto, agradável, bem distribuído e repleto de atrações. Equipe VooDoo a postos. O primeiro passo foi desbravar o ambiente e registrar na “película” (que velho!). Superados os problemas de organização, produção e afins, vamos ao que interessa.

 

Partindo pras atrações, diria que o primeiro dia de festival, em resumo, poderia ser cortado. Sinceramente, motivo de decepção tanto pela desorganização quanto pelas atrações. Explico: dificuldades no credenciamento, tempo em demasia pra resolverem problemas, correrias de um lado a outro, informações desencontradas, atrasos no início das atividades, atrasos nos shows, e, ainda: certa incoerência na relação atrações-proposta do festival. Neste último quesito, ficou nítido um “ruído” entre o mote do evento e o perfil de alguns artistas ali presentes. É o caso do show inaugural no palco principal, da cantora portuguesa de fado Ana Moura, que apelou pra participação de Gilberto Gil, na tentativa de obter uma sintonia maior com a atmosfera proposta pelo evento. Não obteve sucesso, e o resultado foi um show finalizado com “Sítio do Pica-pau Amarelo”, além de muito fado por cerca de uma hora. Fica o registro da crítica aos realizadores por terem inserido a moça num festival com “Black” no nome; a cantora, por seu lado, apresentou muitos predicados que com propriedade deveriam ser demonstrados noutro local, noutro evento. A atração seguinte, a banda africana Tinariwen, não caiu no meu gosto, admito. Ao meu ver trouxe um som muito bacana, porém pouco empolgante, repleto de cânticos ritualísticos um tanto distantes do tom contagiante idealizado para um grande show num festival black, e até mesmo do afrobeat proposto pelo grupo. Macy Gray, que completou o primeiro dia, poderia ser incluída noutra noite, fazendo um festival de duas datas recheadas com nomes condizentes.


O segundo dia trouxe uma grata surpresa, compensando a ausência do grande astro Prince, que cancelou sua vinda às vésperas. A cantora malinesa Oumou Sangaré, pra mim o maior destaque do festival (junto com Aloe Blacc), impressionou pela energia e carisma. Em excelente apresentação, com grandes performances, sorrisos nos rostos de todos no palco, ela parece ter transmitido a energia dos orixás para o público, encantado e empolgado com o som tipicamente africano e muito bem executado por sua competente banda, repleta de instrumentos típicos. Na última música, Wele Wele (que denuncia o casamento forçado, prática ainda comum no Mali), chamou a participação da massa, que aderiu e curtiu por longos e dançantes minutos, até ovacioná-la ao encerramento. Já Chaka Khan, a segunda atração, pareceu cantar músicas de novela, embalando os momentos épicos de beijos em final de capítulo. Apresentou um estilo voltado em demasia ao disco dos anos 80, um tanto massante pra quem esperava algo mais groovado. Destaque para a interpretação de Tell Me Something Good, clássico da black music interpretado por diversos nomes de peso, como Maceo Parker.
A substituição de Prince por Jorge Ben pareceu aquela solução caseira emergencial e sem erro. A carta devia estar na manga desde o início, pra algum imprevisto. A quantidade de hits e toda sua história não podem causar outra reação no público que não o balançar incessante e frenético de corpos. Mas a impressão que fica, corroborada por muitos cariocas que já o assistiram em diversas oportunidades, é o modo automático na apresentação. Ele entra, não dá boa noite, sai tocando, cantando, fazendo todos pularem, conduz a banda (com maestria, diga-se). Por vezes aprece irritado, de saco cheio, fazendo aquilo pela grana. Sem sorrisos; “salve apatia”. A participação do ex-baterista do Living Colour, Will Calhoun, deu um peso bacana e fortaleceu o show. Curiosa foi a relação do Jorge Ben com os técnicos do festival, um tanto quanto abobalhados no evento. Repetidas vezes ele deixou claro estar com problemas técnicos no monitor. Não tinha retorno; e sua voz realmente saía fraca. Os técnicos nada faziam diante dos apelos do músico, e pareciam mais preocupados em tirar fotos com o baterista convidado do que atender suas solicitações. Houve certa demora, mas a caixa foi trocada, junto com o microfone. Depois, ao estender uma guitarra, num intervalo entre músicas, prestes a cumprimentar o convidado e voltar pra reiniciar o show, o técnico a segurou… e ficou estancado no palco. Quando se deu conta, partiu pra buscar o outro instrumento da vez, errando na escolha e causando impaciência em Jorge Ben, que franzia a testa e dizia: “Não, não!”. Além, é claro, de um técnico que se meteu a tocar percussão, a convite do próprio Jorge Ben. Outra presença especial foi a de Caetano Veloso, causando furor na platéia.


O terceiro dia também reservava belos momentos. Com ASA, Aloe Blacc e Seu Jorge + Almaz, o time era forte. Destes, somente os últimos não corresponderam. Mais pelo show não ter encaixado do que por qualquer coisa, pois fizeram um grande trabalho. Os músicos, oriundos da lendária Nação Zumbi, estraçalham qualquer instrumento. Seu Jorge estava doidaço! O destaque ficou com Aloe Blacc, o estadunidense que veio dar um pouco do seu jingado pros brasucas, e mandou ver! Abrindo o show com a introdução de I Need a Dollar, descabaçou até a virgem mais pueril ali presente quando emendou Hey Brother, outro sucesso seu. E manteve o público hipnotizado até o fim. Interagia com o público, impressionava, surpreendia. Esbanjou elegância (como toda a banda), ginga, e mostrava estar gostando do que fazia. Não saberia dizer se era simpatia, mas sorria; todos sorriam. Foi um dos únicos a caminhar pelas instalações da Leopoldina nos demais dias. Também assistiu ao show de Jorge Ben, fazendo caras reprovadoras sabe-se lá de quê (talvez dos problemas técnicos). Mas matou a pau, essa é a verdade. Ele representou o black de alma, de soul, de raiz. O funk safado mesmo, com movimentos erotizados ao ponto, sem extravagâncias e com a malícia extraída de James Brown e Marvin Gaye. Dançava, e bem, em todas as canções. Comandou versões de clássicos do reggae e do pop, misturando estilos e dando sua cara. E deu certo. Muito certo. Assumiu a figura de estrela do festival, com toda a certeza. E com justiça.

 

Acompanha o texto completo do Oster no blog VooDoo.



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