22.Mar.2012 17:38
Yajna Moreira
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Madeirite Trópico e a vida de surfista

Nos últimos dias 3 e 4 desse mês aconteceu a segunda edição do Madeirite Trópico, em Torres. Claro que a Ipanema tava por lá cobrindo todo o evento, entramos várias vezes com boletins ao vivo, tiramos muitas fotos, mas cá entre nós, por mais que tentemos, nada melhor que a perspectiva de um surfista, né?

Então olha aí o texto do surfista Lucas Zuch, do blog Surfari, e do seu pai, nem tão surfista assim...

 

No ano de 2012 ocorreu pela segunda vez o evento Madeirite Trópico. Essa ocasião, que mais poderia ser definida como uma reunião de gerações foi uma das melhores ideias que vi recentemente. Não se trata do campeonato, dos pontos, qualquer coisa. Se trata das famílias, das pessoas, da união. O mar ensina muitas coisas, quando há alguém para auxiliá-lo no descobrimento desse espaço as coisas ficam mais seguras. Quando essa pessoa é aquela em que você provavelmente tem a maior confiança em toda a vida as coisas não ficam apenas mais seguras, elas ficam mais bonitas, divertidas e sublimes.

O Rio Grande do Sul tem uma peculiaridade em relação à maioria dos lugares onde existe uma comunidade de surfistas, aqui a “colonização” ocorreu por meio das famílias. No princípio, entre o final dos anos 1950 e início dos anos 1960, conseguir uma prancha era tarefa cara e árdua, mas os poucos sortudos que conseguiam colocar suas mãos em uma faziam com que seus amigos experimentassem daquela dádiva, daquele segredo. Assim, esses surfistas passavam para seus filhos o ensinamento e estes repassavam aos amigos, sucessivamente. Isso fez com que o estado conte hoje com, no mínimo, cinco gerações de surfistas, dos pioneiros Johanpetter, Bins e Seftons até os groomets atuais.

Ainda assim, minha intenção não é apenas centrar esta crônica no evento Madeirite Trópico, mas sim tratar de particularidades na relação de pais e filhos, que no meu caso não era surfista. O caso contado transcorre a partir da ótica do surf, mas poderia se referir a qualquer outro aspecto tangente a essa relação familiar.

Em 2012 me encontro com 22 anos e completo, neste ano-calendário, 12 anos de uma atividade que compõe parte significativa do meu tempo de lazer, cota de exercício físico e, mais do que tudo, uma paixão. O surf. Recentemente, avaliei que apesar de jogar bola desde que não controlava o conteúdo das fraldas e o ranho escorria indiscriminadamente das minhas narinas, o surf é a atividade (de lazer ou física, tanto faz) à qual me dediquei por mais tempo na vida. Mesmo se comparad0 a outros campos da vida como a escola, em que passei 11 anos, e a faculdade, em que passei 4 anos, o tempo de surf supera qualquer empreendimento vivencial ao qual dediquei minha energia em meu tempo de existência. Não se precipite em pensar que estou menosprezando a importância de meus 15 anos de estudos, voltarei a eles mais adiante.

Apesar desses 12 anos de prática, tenho ciência de que me encontro longe do nível de habilidade que quero chegar e ao qual sei que meu potencial pode se estender, por isso seguidas vezes me via pensando sobre como gostaria de que meu pai fosse surfista. Isso, em meus pensamentos, certamente teria feito com que eu frequentasse mais a praia durante a infância do que apenas no verão, teria alguém a quem, diretamente, perguntar o que deveria fazer para melhorar minha escolha de ondas e como fazer para não cair depois de tentar uma rasgada. Olhava, constantemente, para o exemplo de alguns amigos que surfavam melhor do que eu e via que seus pais os haviam iniciado no templo salgado quando ainda davam seus primeiros passos. Associava, com gosto amargo, que sua criação havia se dado em volta do oceano e seus valores refletiam sua disposição e habilidades aquáticas. Devo admitir que isso me incomodou durante algum tempo.

Não é a toa que Sócrates demonstrou ser o maior dos sábios quando cunhou o célebre ensinamento: “Quanto mais sei, mais sei que nada sei”. Quando começava a dar meus primeiros passos na vida profissional, certo dia conversava com meu pai sobre um conhecido e uma empresa que eu estava aproximando para que se concretizasse um negócio entre eles. Em dado momento ele me olhou de esguelha e disse, num tom de simplicidade muito clara: “Vem cá, tu já pensou em ser sócio desse cara?”. Por um instante, meu queixo literalmente caiu. Não, eu não havia pensado nisso. Não, talvez, apesar da evidente oportunidade, nunca tivesse tido essa ideia.

O que se seguiu a isso foi outra avalanche de pensamentos e conversas de âmbito cerebral. Comecei a remontar o quebra-cabeça da minha infância e busquei onde estavam os pontos em que havia a influência do meu pai nos meus valores e personalidade. Observei que apesar de sua influência no meu surf não fosse do tamanho que por vezes eu gostaria, percebi que em outros tantos campos sua importância atuara sob formas que eu não havia notado. Minha facilidade de me relacionar e entender pessoas, minha curiosidade pelo mundo, a sagacidade intelectual – aqui também retorna o valor dos anos que passei estudando – e tantas outras coisas que nunca tinha parado para me dar conta, pois havia focado durante algum tempo no que faltou, ao invés do que veio em detrimento disso. Vale dar o crédito também à minha mãe, que por muitas vezes comandou o barco.

Ao trazer à tona tantas boas memórias, inclusive, me lembrei das tantas vezes em que ele me empurrava nas ondas quando eu ainda estava começando, algo que havia, de certa forma, esquecido. Não pretendo afirmar que não gostaria que meu pai tivesse sido surfista, o que provavelmente teria aumentado meu contato com o mar no período da infância, nem que pais que surfam deixam de ensinar lições valiosas aos filhos, nada disso. O que observo durante minha, ainda, curta jornada na Terra é que muitas vezes nos deixamos levar pelas coisas que eventualmente nos faltam, sendo que na maioria das vezes deixamos passar as coisas que estão debaixo do nosso próprio nariz. Além disso, nunca vamos ter a habilidade de mudar o passado, de forma que se o carregarmos no presente ele irá se tornar um fardo. Por melhor ou pior que seja esse passado ele tem a ver com um caminho que percorremos, e não pode ser percorrido novamente.

Pensando em moldar o futuro, por sinal, comecei a dar umas aulas de surf para o meu pai. Assim, já posso dizer que ele também é surfista.

Texto por Lucas Zuch



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